Diferenças entre morar na Califórnia e em Londres

Este é um post bem particular sobre algumas diferenças entre morar na Califórnia e Londres que já percebemos em pouco tempo no país. Nós fizemos nossa mudança da Califórnia para a Europa no início de julho de 2016 e, desde então, estamos nos adaptando à vida no Velho Continente. Neste post, reunimos as primeiras percepções que tivemos ao desembarcar de mala e cuia na terra da rainha! Confira algumas diferenças entre morar na Califórnia e em Londres que levantamos nos nossos dois primeiros meses morando por aqui.

DIFERENÇAS ENTRE MORAR NA CALIFÓRNIA E EM LONDRES

Vale a pena lembrar que este post é mega pessoal e diz respeito às experiências que tivemos morando em dois lugares do mundo: Califórnia, mais especificamente a região do Vale do Silício, área que concentra as principais indústrias de tecnologia do planeta; e Londres, uma das megalópoles mais importantes do mundo. A respeito de violência, em ambos os lugares nos sentimos extremamente seguros. O Vale do Silício é um lugar pacato, bastante tranquilo e Londres, embora seja agitada em sempre em movimento, é toda monitorada por câmeras e há policiamento por toda a cidade. Mas, vamos às diferenças!

1. CLIMA

Chegamos a Londres em pleno verão europeu. A cidade nos surpreendeu com dias de céu azul, quentes e abafados. A umidade do ar é elevada e é muito comum ter chuvas rápidas. Mas já conhecemos um pouco da Londres cinza, com garoa persistente, vento gelado. Uma coisa que reparamos é que a cidade não está preparada para temperaturas elevadas, pois frequentar museus nos dias quentes é quase insuportável e sufocante. O ar condicionado não dá conta do excesso de turistas e, em alguns lugares, não há sequer ar condicionado. As estações do metrô ficam muito abafadas.

Diferenças entre morar na Califórnia e em Londres
Londres também tem céu azul! Vista do observatório do shopping center One New Change.

Ainda não sabemos como é o inverno londrino e seus dias curtos, mas já deu para sentir um pouco das diferenças com a Califórnia. Na Califórnia raramente chove. As chuvas, de fato, estão mais concentradas no inverno. No entanto, o tempo geralmente é seco e a umidade do ar muito baixa. Os dias raramente são nublados, exceto em San Francisco cujo clima é indecifrável, vento gelado o ano todo e muita névoa.

2. REFEIÇÕES

Os europeus, em geral, sabem aproveitar bem a vida. É muito comum ver as pessoas no Centro Financeiro de Londres, na hora do almoço, tomando cerveja em pé em um pub! Nos restaurantes, basta dar uma olhada para as mesas para perceber que a grande maioria conta com uma taça de vinho ou um copo de cerveja, sim no almoço! As pessoas sentam, conversam, batem papo.

Torta de peixe com champagne no almoço
Torta de peixe com champagne no almoço

O Paulo relatou um pouco da experiência dele durante o almoço no Google de Mountain View, a matriz da empresa, e no Google em Londres. Embora o Google seja diferente da maior parte das empresas do mundo, alguns hábitos fazem parte da cultura americana e o almoço é um delas. Vai chegando o momento da fome, as pessoas levantam (sem falar com ninguém), vão ao refeitório, pegam a comida em uma embalagem descartável e voltam para a mesa de trabalho. E devoram a comida enquanto olham fixamente para a tela do computador, sem ter nenhum tipo de contato com o mundo real. Na Europa, é diferente, muito mais cara de Brasil. Vai chegando a hora do almoço e as pessoas levantam e convidam uns aos outros para almoçar. Vão até o refeitório, servem-se da comida e sentam às mesas do refeitório para comer e conversar.

3. TRANSPORTE PÚBLICO

É muito raro conhecer em Londres alguém que tem um automóvel. É caro, não tem onde estacionar e, acima de tudo, é praticamente desnecessário. A rede de transporte público é incrível, com dezenas de estações de metrô, linhas de ônibus, de trem. Até mesmo as bicicletas convivem em harmonia com os carros, utilizando a mesma faixa! É possível se deslocar por toda Londres e por muitas cidades do interior utilizando transporte público. Ah, Califórnia, você tem tanto a aprender!

Veículos no London Transporte Museum, que conta a história do transporte público de Londres
Veículos no London Transporte Museum, que conta a história do transporte público de Londres

O transporte público não é um dos pontos fortes da Califórnia, definitivamente. Em cidades maiores como Los Angeles e San Francisco, as opções são melhores, mas mesmo assim deixam a desejar. Ir do Vale do Silício até San Francisco, pode demorar mais de 2 horas dependendo do transporte. É muito mais comum cada um ter seu carro e andar pelas highways desacompanhados, sem ter interação nenhuma uns com os outros. Na Califórnia, alternativas como ZipCar e Uber funcionam muito bem para quem não tem seu carro próprio. As possibilidades rápidas e fáceis de deslocamento em Londres, colocam a cidade na frente neste quesito.

4. COMPRAS NO MERCADO

Como as pessoas costumam usar carro na Califórnia, é bem comum saírem do mercado com o carrinho cheio. Em Londres, as pessoas fazem compras, no máximo, para a semana, porque tudo o que comprarem vão ter que levar para casa a pé ou de transporte público. Nós sentimos falta da variedade e quantidade de produtos nos mercados americanos. E as farmácias? Dá para se perder dentro de uma CVS ou Walgreens! Em Londres, não tem Safeway (mercado famoso nos EUA) e ainda estamos nos acostumando com as opções escassas dos mercados como M&S, Sainsbury e Tesco e da rede de farmácias Boots. Sem dúvida, o ponto positivo aqui é para os EUA.

5. FÉRIAS

Sabiam que segundo as leis britânicas os empregados têm direito a 30 dias ÚTEIS de férias remuneradas? Pois é, mais que o Brasil! Nos EUA, não existem leis trabalhistas que garantam férias para os empregados. O Google, que é uma exceção à regra, dá somente 15 dias no primeiro ano na empresa. Em compensação, os EUA tem mais feriados que o Reino Unido, mas muitas empresas exigem compensação ou os dias de folga não são remunerados. Em geral, achamos as leis trabalhistas americanas muito ruins para um país tão desenvolvido. Muitos estudos mostram que momentos de lazer são importantes para a saúde mental de qualquer ser humano e fazem com que nos tornemos ainda mais produtivos.

6. CULTURA

Para mim, é um dos pontos que mais pesa. Não existe lugar no mundo que, na minha opinião, seja mais rico culturalmente do que a Europa, um dos berços da civilização. E estar em contato com alguns dos melhores museus do mundo, galerias de arte, castelos, palácios, aprendendo de perto muita coisa que li nos livros de história, não tem preço. Londres é recheada de opções culturais GRATUITAS. Dá para ir a pé ou pegar um metrô rapidinho e dar uma passada em um museu ou galeria de arte. Os lugares são deliciosos, muitos deles contam com restaurantes bacanas, que nos deixam ainda com mais vontade de passar o dia inteiro lá. Os Estados Unidos são um país lindo, com muitos parques nacionais deslumbrantes, praias, canyons, florestas. Mas a história americana é relativamente recente e, convenhamos, não é tão rica quanto a europeia. Como tenho uma verdadeira paixão por aprender sobre novas culturas, amo história, arte, geopolítica e afins, a Europa é um lugar perfeito.

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British Museum, um dos museus mais incríveis do mundo é GRATUITO

7. CUSTO DE VIDA

Ouvimos uma infinidade de pessoas querendo nos assustar sobre o custo de vida em Londres. Gente, vocês conhecem a Califórnia? Já viram o nosso post sobre “Quanto custa morar na Califórnia“? Já viram que em diversos estudos San Francisco é considerada a cidade mais cara para morar no mundo? Londres não nos assustou com os preços como achávamos que nos assustaria. Morar aqui é caro? Sim, mas depende! Se você trabalha no país e seu salário é em libras esterlinas, não é tão assustador quanto as pessoas pensam. Outro dia estávamos lendo o post do Érico Maia do blog eLondres sobre “diferença de preços entre Brasil e Inglaterra” e temos que concordar com as observações que ele fez. Tudo é muito relativo, não dá para fazer converter a moeda a todo instante quando se mora fora do Brasil porque acaba perdendo o sentido. Se suas receitas e suas despesas são em libras esterlinas, o custo de vida tem que ser avaliado com base na moeda local. E outra, pagar um aluguel caro em Londres, mas estar cercado de transporte público de qualidade, bons hospitais, museus e galerias excelentes e gratuitos, no final das contas, acaba saindo “barato”.

8. MARCAS DOS PRODUTOS

Uma das grandes dificuldades de mudar de país é que a gente perde a referência das marcas. Vamos ao supermercado e não reconhecemos nada! Às vezes, porque não tem, outras porque o nome é diferente mesmo. Mas uma coisa que sentimos é que praticamente todas as marcas de roupas que usamos são americanas. Temos profundo desconhecimento das marcas do Reino Unido. É claro que Londres é inundada por produtos americanos, mas, por serem importados, são mais caros dos que estávamos costumados a pagar quando morávamos na Califórnia.

9. MEDIDAS DIFERENTES

Ai que dificuldade essa, minha gente! Nós já não sabíamos direito os tamanhos nos Estados Unidos porque variam de uma marca para outra, mas na Europa estamos ainda mais perdidos. Nós não somos mesmo de comprar muito e, por isso, nem virou uma preocupação no momento. No entanto, algumas de nossas roupas já estão bastante batidas e, em breve, vamos ter que começar a procurar umas peças novas. E a preguiça que dá ficar procurando o tamanho certo? Já meio que desistimos dessas tabelas de conversão porque elas erram muito. Nesses dias reparei nos números do meu tênis: no Brasil é 36, nos EUA é 7, na Europa é 38, e no Reino Unido é 4,5! Fácil, né?

10. A TOMADA

Sabemos que isso vai ser polêmico porque cansamos de ler nas redes sociais gente reclamando do modelo de tomada brasileira e dizendo que era um absurdo porque os gringos quando fossem para as Olimpíadas iriam sofrem. O padrão americano é ótimo, pode não ser o mais seguro do mundo, mas é prático. Mas o modelo britânico (que é diferente do modelo europeu) é uma tristeza. Podem ter certeza de que TODO MUNDO que veio para as Olimpíadas de Londres em 2012 teve que comprar um adaptador para poder usar os aparelhos eletrônicos na cidade! Dá só uma olhada na minha mão segurando um benjamim britânico! É ou não é gigantesco?

Segurando um singelo benjamim britânico...um monstrinho
Segurando um singelo benjamim britânico…um monstrinho

11. IMPOSTOS DE PRODUTOS E GORJETAS

Uma das grandes diferenças que sentimos morando em Londres foi que os impostos dos produtos são embutidos nos produtos, assim como no Brasil. Nos EUA, estávamos acostumados a ver o preço de um produto e somar o percentual de imposto (que varia por estado). Além disso, a remuneração de garçons, por exemplo, é muito baixa e a gorjeta é algo importante no pagamento deles. É comum dar 15%, 18% de gorjeta no total de uma conta. No Reino Unido, a maior parte dos lugares não é preciso pagar gorjeta e quando é cobrada, geralmente, fica em torno de 10% e já vem com o valor total da conta (como no Brasil).

12. NO RESTAURANTE

Chegar em um restaurante nos EUA é sinônimo de ter água gelada na sua mesa o tempo todo! Assim como nos EUA, não é preciso pagar pela água, basta pedir “tap water” (água de torneira). No Reino Unido é preciso pedir e a maior parte das vezes a água vem na temperatura ambiente. Durante a refeição, o garçom americano já traz a conta e deixa em cima da mesa. No Reino Unido é como no Brasil, é preciso pedir pela conta. E como falamos, geralmente, nada de gorjeta. Nos EUA, depois de receber a conta, você coloca o valor da gorjeta no comprovante de pagamento e faz a soma do que foi consumido com o valor da gorjeta.

13. COMIDA

A culinária mexicana tem grande influência no tempero dos alimentos na Califórnia. É comum ter pratos preparados com pimentas fortes e outros temperinhos típicos do México. E mesmo para o Paulo, que ama pimenta, às vezes é tão forte que fica difícil de comer. Como em Londres há muitos restaurantes de culinária europeia, estamos comendo muito bem. Além disso, temos provado muitos pratos diferentes da culinária inglesa que até então não conhecíamos. Está sendo um momento de muitas descobertas gastronômicas.

Sunday Roas, prato típico da culinária inglesa, do pub The Hack & Hop
Sunday Roast, prato típico da culinária inglesa, do pub The Hack & Hop

14. A MISTURA DO ANTIGO COM O NOVO

Uma das coisas mais interessantes de morar em Londres tem sido conviver com uma mistura eclética de prédios históricos e arranha-céus espelhados cheios de estilo. Isso era muito mais difícil de encontrar na Califórnia, que é um estado relativamente novo, com construções bastante recentes. Pisar em igrejas que foram construídas na época medieval e hoje estão ao lado de prédios altíssimos e mega tecnológicos é algo incrivelmente mágico.

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Na mesma foto da direita para a esquerda: Tower Bridge (século XIX), Torre de Londres (século XI) e prédios do centro financeiro de Londres (século XXI)

15. O SOTAQUE E O INGLÊS BRITÂNICO

Vocês não estavam achando que deixaríamos de lado o sotaque e inglês britânico, não é mesmo? Dependendo da pessoa, parece que estamos ouvindo outro idioma! E não é só o sotaque, morando aqui descobrimos (algumas já sabíamos mais não usávamos) tantas palavras que escrevem diferente do que estávamos acostumados nos EUA!

  • “s” no lugar de “z”: civilization (EUA), civilisation (UK)
  • “c” no lugar de “s”: defense (EUA), defence (UK)
  • “tre” no lugar de “ter”: theater (EUA), theatre (UK)
  • “our” no lugar de “or”: color (EUA), colour (UK)
  • Os britânicos falam “cheers” para dizer obrigado, nos EUA, só usamos essa palavra quando fazemos um brinde!
  • Os britânicos falam “queue” no lugar de “line” (fila)
  • Os britânicos falam “lift” no lugar de “elevator”
  • Os britânicos pedem a conta em um restaurante dizendo “bill” e nos EUA é comum falar “check”

Nossa, tem tanta coisa que é difícil lembramos de tudo! Só colocamos uns exemplos aqui para dar ideia das grandes mudanças de vocabulário e ortografia que estamos vivenciando por aqui.

O QUE VEM POR AÍ…

Não sabemos! E isso é ótimo! Logo mais está chegando o inverno em Londres, dias curtos e mais chuvosos e nós vamos ter que nos adaptar a tudo isso. Talvez nossas percepções mudem em relação ao que vivemos até aqui ou talvez, se reforcem. A melhor parte disso tudo é o aprendizado tremendo que estamos tendo vivendo nesta cidade que estamos amando! Continuem nos acompanhando porque a aventura está só começando!


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